Renault: 128 anos, um complexo em Curitiba e uma sócia chinesa dentro de casa
A francesa que chegou ao Brasil pela Willys nos anos 1950 virou Renault Geely do Brasil em novembro de 2025 e já produz carro chinês em São José dos Pinhais

Dado central da análise
Investidos no ciclo 2025 a 2027 no Paraná
O que você precisa saber
- Fundação: primeiro carro vendido em dezembro de 1898; empresa constituída em fevereiro de 1899
- Nacionalização em 1945 e privatização em 1996
- Vendas globais em 2025: 2.336.807 veículos, alta de 3,2%
- Primeira passagem no Brasil: acordo com a Willys-Overland nos anos 1950; Dauphine de 1959 a 1968
- Complexo Ayrton Senna: inaugurado em dezembro de 1998, em São José dos Pinhais, com 2,5 milhões de m²
- Produção acumulada no complexo: 4 milhões de veículos em janeiro de 2025
- Geely comprou 26,4% da operação brasileira em 18 de novembro de 2025
- Investimento do ciclo atual: R$ 5,8 bilhões, sendo R$ 3,8 bi em 2025 e R$ 2 bi em setembro de 2026
- Produção do Geely EX5 em São José dos Pinhais: iniciada em 15 de setembro de 2026
- Emplacamentos no Brasil de janeiro a agosto de 2026: 84.513 unidades, 4,6% e sétimo lugar
- Preço de entrada da linha: Kwid a partir de R$ 71.190
# Renault: 128 anos, um complexo em Curitiba e uma sócia chinesa dentro de casa
A operação brasileira da Renault mudou de nome em novembro de 2025. Quem lê só a manchete acha que foi detalhe societário. Não foi.
Resposta rápida
A Renault vendeu seu primeiro carro em dezembro de 1898 e foi constituída em fevereiro de 1899 pelos irmãos Renault, na França. No Brasil, inaugurou o Complexo Ayrton Senna em São José dos Pinhais, no Paraná, em dezembro de 1998. Em 18 de novembro de 2025 a chinesa Geely comprou 26,4% da operação brasileira, que passou a se chamar Renault Geely do Brasil, e o investimento acumulado no ciclo atual chegou a R$ 5,8 bilhões. Em 2026 a marca emplacou 84.513 unidades até agosto, com 4,6% de participação e sétimo lugar.
Da Voiturette de 1898 à nacionalização e de volta
Louis, Marcel e Fernand Renault venderam a primeira Voiturette em 24 de dezembro de 1898 e constituíram a empresa em 25 de fevereiro de 1899.
A trajetória francesa tem uma cicatriz que poucas montadoras carregam: em 1º de janeiro de 1945 a empresa foi nacionalizada e transformada em Régie Nationale des Usines Renault, depois da morte de Louis Renault na prisão. A privatização só veio em 1996, e foi justamente ela que abriu a expansão para o Leste Europeu e para a América do Sul. Em 1999 a Renault comprou 51% da romena Dacia e em 2000 assumiu a divisão automotiva da Samsung.
Em 2025 o grupo vendeu 2.336.807 veículos no mundo, alta de 3,2% e terceiro ano seguido de crescimento, com cerca de 400 mil híbridos e 194 mil elétricos. O balanço do mesmo ano, porém, registrou prejuízo líquido de 10,93 bilhões de euros, efeito contábil da reavaliação da participação na Nissan.
A Aliança que definiu 25 anos está em desmonte controlado
A Aliança Renault-Nissan nasceu em 27 de março de 1999, quando a francesa comprou 36,8% da japonesa. Com a entrada da Mitsubishi em 2016, o grupo chegou a 10,76 milhões de veículos em 2018, o maior volume de veículos leves do mundo naquele ano.
O rebalanceamento começou em novembro de 2023, quando a Renault reduziu de 43,4% para 15% a fatia com direito a voto na Nissan, transferindo o restante a um fundo francês em regime neutro. Em março de 2025 o piso de participação cruzada caiu de 15% para 10%, a Renault assumiu 100% da operação indiana antes dividida com a japonesa e a Nissan foi liberada do compromisso de investir na Ampere.
O que restou da Aliança hoje é cooperação por projeto, e não mais controle acionário cruzado forte. O exemplo mais recente é o Nissan Pixo elétrico, produzido pela Renault na Eslovênia sobre a mesma base do Twingo.
No Brasil, a Renault chegou duas vezes
A primeira passagem é anterior à fábrica e passa por outra marca.
Em meados dos anos 1950 a Renault fez acordo comercial com a Willys-Overland do Brasil, ficou com 12% das ações da empresa e licenciou a produção. Daí saíram o Dauphine, produzido de 1959 a 1968, o Gordini, de 1962 a 1968, cujo Gordini IV foi o primeiro carro brasileiro com freios a disco de série, o 1093 e o Willys Interlagos, derivado do Alpine A108.
Quando a Ford assumiu o controle da Willys, entre 1967 e 1968, herdou junto o projeto que viraria o Corcel, essencialmente um Renault 12 desenvolvido em cooperação franco-brasileira. O motor do Renault R-8 de 1962 seguiu em produção na Ford por décadas, em Belina, Del Rey, Pampa, Escort e Gol.
A segunda chegada foi por decisão de Estado. Em março de 1996, depois de disputa entre sete estados, o Paraná fechou o acordo com um pacote que incluía doação de 250 hectares, isenção fiscal por dez anos e participação do Estado em 40% de um investimento de cerca de US$ 300 milhões.
O Complexo Ayrton Senna é o segundo maior do grupo no mundo
A fábrica de automóveis foi inaugurada em dezembro de 1998 em São José dos Pinhais, com capacidade inicial de 120 mil veículos por ano e o Scénic como primeiro modelo. Veio depois a fábrica de motores, em dezembro de 1999, e a de utilitários em parceria com a Nissan, em dezembro de 2001.
Hoje são 2,5 milhões de metros quadrados e cerca de 5 mil funcionários diretos. O complexo atingiu 4 milhões de veículos produzidos em janeiro de 2025 e exportou 51.925 unidades em 2024. Ali saem Kwid, Kardian, Duster, Oroch, Master, o Boreal, cuja produção começou em outubro de 2025, e motores.
A Geely entrou no capital, não só na parceria
Este é o ponto que muda a natureza da operação brasileira.
Em junho de 2025 Geely Auto, Geely Holding e Renault anunciaram a joint venture. Em 18 de novembro de 2025 a Geely adquiriu formalmente 26,4% do capital da Renault do Brasil, e a empresa passou a se chamar Renault Geely do Brasil. A composição ficou em 73,57% da Renault, 21,29% da Geely Auto e 5,11% da Zhejiang Geely Holding. O CEO é Ariel Montenegro e o presidente do conselho é Fabrice Cambolive, CEO global da marca Renault.
O compromisso anunciado na ocasião foi de R$ 3,8 bilhões, para trazer a plataforma Geely GEA ao Brasil, produzir dois modelos Geely e renovar um produto Renault. Em 15 de setembro de 2026 vieram mais R$ 2 bilhões, elevando o ciclo a R$ 5,8 bilhões.
A produção do SUV híbrido Geely EX5 EM-i começou em 15 de setembro de 2026 no Complexo Ayrton Senna, e o hatch elétrico EX2 entra em dezembro de 2026. Ou seja: a fábrica que o Paraná financiou em 1996 para uma francesa hoje monta carro chinês, com capital chinês no controle minoritário da operação.
O que vem em 2027
Em 26 de setembro de 2026 Ariel Montenegro confirmou um carro inédito com design Renault sobre a plataforma GEA da Geely, com produção começando em 2027 em São José dos Pinhais. O prazo de desenvolvimento foi cortado praticamente pela metade, de cerca de quatro anos para cerca de dois.
Há ainda um segundo modelo inédito previsto para antes de dezembro de 2027 e a nacionalização do conjunto híbrido E-Tech 4x4 flex a partir de 2027. Fabrice Cambolive resumiu a lógica em uma frase: o fator número um no Brasil é a acessibilidade.
A picape Niagara chega em novembro de 2026, com motor 1.3 turbo de injeção direta, 158 cv pelo dado oficial da marca, versões 4x2 e 4x4 e plataforma compartilhada com Boreal e Kardian. A versão híbrida ficou para 2027. Um alerta de apuração: parte da imprensa especializada aponta que a produção da Niagara fica concentrada em Córdoba, na Argentina, e não no Paraná, ponto que a montadora ainda não esclareceu publicamente. O calendário completo do ano está no guia de lançamentos de 2027.
O tamanho atual no Brasil
A Renault emplacou 84.513 unidades de janeiro a agosto de 2026, 4,6% de participação e sétimo lugar entre as marcas. Em agosto isolado foram 9.784 unidades, oitavo lugar, com 56,51% do volume em vendas diretas, proporção alta que indica forte dependência de frota e de locadora.
No varejo, o Kwid segue como o carro da marca, com 4.357 unidades em agosto, seguido de Kardian e Duster. Nos comerciais leves, onde a Renault se declara líder há doze anos consecutivos, o Master vendeu 1.267 unidades no mês.
Um dado que merece atenção de quem acompanha eletrificação: o Kwid E-Tech, lançado como o elétrico mais barato do Brasil a R$ 99.990, sumiu das concessionárias em abril de 2026 sem previsão de retorno, com apenas 134 unidades emplacadas no ano, e não consta mais da linha oficial. O Megane E-Tech emplacou duas unidades no mesmo período. É um contraste forte com o desempenho das marcas chinesas no segmento, tratado no ranking dos híbridos e elétricos mais vendidos.
Perguntas frequentes
Quando a Renault começou a produzir no Brasil?
A produção própria começou com a inauguração do Complexo Ayrton Senna, em São José dos Pinhais, no Paraná, em dezembro de 1998, tendo o Scénic como primeiro modelo. Antes disso, nos anos 1950 e 1960, modelos Renault foram produzidos no Brasil pela Willys-Overland.
O que é a Renault Geely do Brasil?
É o novo nome da operação brasileira da Renault, adotado em 18 de novembro de 2025, quando a chinesa Geely comprou 26,4% do capital. A Renault mantém 73,57%, a Geely Auto tem 21,29% e a Zhejiang Geely Holding, 5,11%.
Quais carros a Renault fabrica no Brasil?
Kwid, Kardian, Duster, Oroch, Master e Boreal, além de motores, todos em São José dos Pinhais. Desde setembro de 2026 a mesma fábrica também produz o SUV híbrido Geely EX5, e o elétrico Geely EX2 entra em dezembro de 2026.
Quanto a Renault vai investir no Brasil?
O ciclo atual soma R$ 5,8 bilhões: R$ 3,8 bilhões anunciados com a entrada da Geely, em novembro de 2025, mais R$ 2 bilhões anunciados em 15 de setembro de 2026, destinados a um novo Renault eletrificado sobre plataforma Geely e à nacionalização do híbrido E-Tech flex.
Quando chega a picape Renault Niagara?
Em novembro de 2026, com motor 1.3 turbo de injeção direta e 158 cv pelo dado oficial da marca, em versões 4x2 e 4x4. A versão híbrida foi adiada para 2027 e o preço ainda não foi divulgado.
O Renault Kwid elétrico ainda é vendido?
Não. O Kwid E-Tech saiu das concessionárias em abril de 2026 sem previsão de retorno, com apenas 134 unidades emplacadas no ano, e não consta mais da linha oficial da marca no Brasil.
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