EIXO MOTOR
TransporteAnálise

Um em cada quatro caminhoneiros autônomos quer largar a profissão, e 86% dos filhos não seguem

Pesquisa da CNTA com o Ilos mostra que 82% não se sentem valorizados e que quase metade espera mais de cinco horas para carregar; a categoria move 204,6 milhões de toneladas por ano

Um em cada quatro caminhoneiros autônomos quer largar a profissão, e 86% dos filhos não seguem
Imagem: Foto: Tom Jackson/Pexels

Dado central da análise

23%

Dos caminhoneiros autônomos pensam em mudar de profissão

O que você precisa saber

  • Caminhoneiros autônomos que pensam em mudar de profissão: 23%
  • Profissionais que não se sentem valorizados: 82% no total, 59% entre os autônomos
  • Motoristas que esperam mais de cinco horas para carga ou descarga: 46,1%
  • Filhos de motoristas que não pretendem seguir a profissão: 86%
  • Volume movimentado pela categoria em 2025: 204,6 milhões de toneladas
  • Participação dos autônomos entre os transportadores registrados: 73,27%
  • Realização da pesquisa: CNTA em parceria com o Ilos

# Um em cada quatro caminhoneiros autônomos quer largar a profissão, e 86% dos filhos não seguem

Quando um setor perde gente no presente e não repõe no futuro, o efeito não aparece na tabela de frete deste mês. Aparece na disponibilidade do ano que vem.

Resposta rápida

Pesquisa da CNTA em parceria com o Ilos mostra que 23% dos caminhoneiros autônomos pensam em deixar a profissão e que 82% não se sentem valorizados. Quase metade, 46,1%, espera mais de cinco horas para carga ou descarga, e 86% dos filhos de motoristas não pretendem seguir a profissão. A categoria movimentou 204,6 milhões de toneladas em 2025 e responde por 73,27% dos transportadores registrados no país.

O tamanho de quem está pensando em sair

O número que abre a pesquisa não é o mais grave, mas é o que chama atenção: quase um quarto da categoria considera mudar de profissão.

Publicidade
Anúncio de Motriz Peças (fictício)
MOTRIZ PEÇASPeça no mesmo diaRede de distribuição em doze estados.Consultar peça

O contexto que dá peso a isso é a representatividade. O autônomo não é figura marginal no transporte brasileiro; é 73,27% dos transportadores registrados e moveu 204,6 milhões de toneladas no ano passado. Uma evasão de 23% não seria um ajuste de margem, seria um choque de oferta.

E há o dado de valorização, que costuma ser tratado como subjetivo e não é: 82% não se sentem valorizados, sendo 59% entre os autônomos. Percepção de valorização é o que segura gente em uma profissão de rotina dura quando surge alternativa com jornada previsível.

A espera de cinco horas é dinheiro parado

O dado mais concreto da pesquisa é o tempo morto: 46,1% esperam mais de cinco horas para carregar ou descarregar.

Para o autônomo, tempo parado em pátio não é remunerado na maior parte dos contratos, e ele não roda porque está esperando. É custo fixo correndo sobre receita zero. Cinco horas em um dia de trabalho comprometem a viagem seguinte e, no acumulado do mês, comprometem a conta inteira.

Esse é o ponto em que o embarcador tem controle direto e raramente mede. Agendamento de doca, previsibilidade de janela e tempo médio de permanência são indicadores operacionais que o próprio contratante gerencia, e que determinam se o transportador vai querer voltar àquele cliente.

A sucessão é o número mais duro

Oitenta e seis por cento dos filhos de motoristas não pretendem seguir a profissão.

Esse é o dado que muda a natureza do problema. Uma categoria que perde atratividade entre os atuais ainda pode ser recomposta se atrair novos. Quando a própria base familiar, que historicamente foi a principal porta de entrada da profissão, deixa de reproduzir, a reposição precisa vir de fora, e isso exige formação, custo de habilitação e uma proposta de carreira que hoje não está desenhada.

O efeito é de médio prazo e silencioso: não falta motorista de uma hora para outra, falta aos poucos, começando pelas rotas menos atrativas e pelas operações mais exigentes.

O que isso faz com o custo do frete

Escassez de mão de obra pressiona preço com a mesma força que combustível, só que mais devagar e de forma menos visível.

A diferença é que o preço do diesel entra na tabela do piso mínimo e é repassado por norma, como no reajuste que elevou o diesel de referência a R$ 7,33. O custo de mão de obra escassa não entra em tabela nenhuma; ele aparece como recusa de carga, prazo maior de coleta e reajuste pontual de rota difícil.

Para o gestor de frota própria, a leitura é a mesma em outro formato: a disputa por motorista qualificado se dá contra o autônomo e contra a frota do concorrente, e o diferencial deixou de ser só salário.

O que dá para fazer, e quem pode fazer

O item com maior retorno imediato está do lado do contratante, porque é o que ele controla sozinho: reduzir o tempo de espera em pátio. Agendamento firme de doca e medição de tempo médio de permanência são mudanças de processo, não de investimento.

Do lado da política pública, os temas recorrentes são segurança em ponto de parada, estrutura de descanso e previsibilidade de renda. E do lado das entidades, a pesquisa serve para transformar queixa em indicador, que é o que permite cobrança objetiva.

Para quem contrata, fica uma pergunta prática que vale mais do que qualquer projeção: qual é o tempo médio de permanência do caminhão no seu pátio, e você sabe esse número sem precisar consultar alguém.

Perguntas frequentes

Quantos caminhoneiros autônomos querem deixar a profissão?

Segundo pesquisa da CNTA com o Ilos, 23% dos caminhoneiros autônomos pensam em mudar de profissão. A categoria responde por 73,27% dos transportadores registrados no país.

Quanto tempo o caminhoneiro espera para carregar ou descarregar?

Quase metade dos entrevistados, 46,1%, espera mais de cinco horas. Na maioria dos contratos esse tempo não é remunerado, o que significa custo fixo correndo sobre receita zero.

Os filhos de caminhoneiros seguem a profissão?

Não. A pesquisa aponta que 86% dos filhos de motoristas não pretendem seguir a profissão, o que compromete a principal porta de entrada histórica da categoria.

Quanto os caminhoneiros autônomos transportam no Brasil?

A categoria movimentou 204,6 milhões de toneladas em 2025 e representa 73,27% dos transportadores registrados.

A falta de motorista encarece o frete?

Sim, mas de forma diferente do combustível. O diesel entra na tabela do piso mínimo e é repassado por norma; a escassez de mão de obra aparece como recusa de carga, prazo maior de coleta e reajuste pontual em rotas difíceis.

O que o embarcador pode fazer para reter transportador?

O item de maior retorno imediato é reduzir o tempo de espera em pátio, com agendamento firme de doca e medição do tempo médio de permanência. É mudança de processo, não de investimento.

Fontes: CNTA, Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos, em parceria com o Ilos||Transporte Moderno, sobre os resultados da pesquisa
pesquisa CNTA caminhoneiro autônomo||tempo de espera para carga e descarga||sucessão de motorista de caminhão
Compartilhar esta matéria
WhatsApp LinkedIn
Publicidade
Anúncio de Rodavia Pneus (fictício)
RODAVIA PNEUSAlinhamento em 40 minHora marcada, sem fila, em nove unidades.Ver unidades

Relacionadas

Feira dos Cegonheiros 2026 abre em São Bernardo com R$ 660 milhões em negócios previstos
Transporte

Feira dos Cegonheiros 2026 abre em São Bernardo com R$ 660 milhões em negócios previstos

A 26ª Expo de Transportes, conhecida como Feira dos Cegonheiros, acontece de 24 a 26 de setembro de 2026 no Pavilhão Vera Cruz, em São Bernardo do Campo (SP). A organização, do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg) com a Conexão Eventos, espera 96 mil visitantes e R$ 660 milhões em negócios, 10% acima da edição anterior. A entrada é 1 kg de alimento não perecível. Esta matéria explica o que é o transporte por caminhão-cegonha, quem expõe na feira e por que o setor acompanha de perto o ritmo dos emplacamentos.

24 de set de 20263 min de leitura
Free flow: faltam 55 dias para o prazo que cancela mais de 3 milhões de multas
TransporteAnálise

Free flow: faltam 55 dias para o prazo que cancela mais de 3 milhões de multas

Três informações sobre o pedágio sem cancela circularam de formas contraditórias em 2026 e confundiram o motorista. Esta análise separa o que a ANTT determinou, o que o governo suspendeu e o que continua obrigatório, com as datas de cada decisão, os prazos da Resolução 6.079/2026 e o que acontece com quem deixar passar 16 de novembro.

22 de set de 20264 min de leitura
A MP dos motoboys caducou e as regras antigas de mototáxi e motofrete voltaram a valer
Transporte

A MP dos motoboys caducou e as regras antigas de mototáxi e motofrete voltaram a valer

A Medida Provisória que tinha afrouxado as exigências para mototáxi e motofrete perdeu validade em 15 de setembro de 2026 sem ser convertida em lei. Com isso, o texto anterior volta a valer. Esta matéria explica o que muda para quem trabalha com moto, o que acontece com quem já se cadastrou e por que o dado novo de acidentes com motocicleta entra no meio dessa discussão.

16 de set de 20263 min de leitura