GWM: a fabricante de picapes chinesa que comprou a fábrica da Mercedes e agora vai para o Espírito Santo
Nascida de uma oficina de reparos em 1976, a Great Wall aposta R$ 10 bilhões no Brasil, cresceu 99,7% em 2026 e prepara uma segunda planta de 200 mil veículos por ano

Dado central da análise
De investimento no Brasil entre 2022 e 2032
O que você precisa saber
- Origem: oficina de reparos criada em 1976 em Baoding, China; fabricante desde 1984
- Marcas do grupo: Haval, Wey, Ora, Tank e Poer
- Vendas globais em 2025: 1.323.672 veículos, alta de 7,33%, com 506.066 exportados
- Fábrica de Iracemápolis: comprada da Mercedes-Benz em 2021, produção inaugurada em 15 de agosto de 2025
- Capacidade de Iracemápolis: 50 mil veículos por ano, com potencial declarado de 100 mil
- Empregos em Iracemápolis: mais de 1.800 em agosto de 2026, em três turnos
- Investimento no Brasil: R$ 10 bilhões entre 2022 e 2032, sendo R$ 4 bi até 2026 e R$ 6 bi de 2027 a 2032
- Segunda fábrica: Aracruz, no Espírito Santo, 1,7 milhão de m² e até 200 mil veículos por ano
- Vendas no Brasil: 11.479 em 2023, 29.217 em 2024, 42.785 em 2025 e 48 mil até meados de agosto de 2026
- Crescimento de janeiro a agosto de 2026: 99,7%
- Rede: 130 concessionárias e 83 centros técnicos
# GWM: a fabricante de picapes chinesa que comprou a fábrica da Mercedes e agora vai para o Espírito Santo
Quando uma marca estrangeira compra a planta que uma alemã decidiu fechar, o que se está comprando não é só concreto. É tempo.
Resposta rápida
A GWM, sigla de Great Wall Motor, nasceu em 1976 como uma oficina de reparos em Baoding, na China, e se tornou fabricante em 1984. No Brasil, comprou em 2021 a fábrica que a Mercedes-Benz desativou em Iracemápolis, no interior de São Paulo, inaugurou a produção em agosto de 2025 e anunciou R$ 10 bilhões de investimento entre 2022 e 2032. Em 2026 a marca cresceu 99,7% até agosto e confirmou uma segunda fábrica em Aracruz, no Espírito Santo.
De oficina de reparos a maior fabricante de picapes da China
A origem da GWM é modesta. A Great Wall Repair Factory foi criada em 1976 por Wei Deliang, em Baoding, província de Hebei, e a operação como fabricante data de 1984. Wei Jianjun assumiu o comando em 1990, aos 26 anos.
A virada veio pelas picapes. Com a Deer, lançada em 1996, a empresa se tornou a maior fabricante de picapes da China. Depois vieram os SUVs, e o Haval H6, lançado em 2010, liderou o segmento na China por 103 meses consecutivos.
Hoje o grupo opera com marcas separadas por posicionamento: Haval nos SUVs, Wey no premium, Ora nos elétricos, Tank no off-road de luxo e Poer nas picapes, com GWM como marca-mãe. São 10 fábricas na China e três plantas de processo completo fora do país, na Tailândia, no Brasil e na Rússia.
Em 2025 foram 1.323.672 veículos vendidos globalmente, alta de 7,33% e recorde histórico, com 506.066 unidades exportadas e 403.653 veículos de nova energia. No primeiro semestre de 2026 as vendas fora da China somaram 289.016 unidades, alta de 45,46%, ultrapassando pela primeira vez a metade do volume total da companhia.
Vale registrar o outro lado do balanço: o lucro líquido de 2025 caiu 21,71% e o do primeiro semestre de 2026 recuou 61,11%, movimento que a empresa atribui a atraso na recuperação de subsídios fiscais no exterior e a variação cambial. Crescer em volume e perder margem é exatamente o retrato da disputa que as chinesas travam hoje.
Iracemápolis: comprar planta pronta é comprar calendário
Em 18 de agosto de 2021 a Mercedes-Benz confirmou a venda da fábrica de automóveis de Iracemápolis para a Great Wall. A alemã havia decidido encerrar a produção de carros no Brasil em dezembro de 2020. A negociação incluiu o terreno de 1,2 milhão de metros quadrados, os prédios e os equipamentos; o valor da transação não foi divulgado, e na época a GWM falava em investir cerca de US$ 300 milhões para produzir no país.
A produção foi inaugurada em 15 de agosto de 2025, com a presença do presidente Lula. É a primeira fábrica da marca nas Américas. São 94 mil metros quadrados de área construída e capacidade de 50 mil veículos por ano na configuração atual, com potencial declarado de 100 mil no longo prazo.
Ali saem o Haval H6, nas versões híbrida e híbrida plug-in, o Haval H9 a diesel e a picape Poer P30. O quadro saiu de 600 funcionários na inauguração para mais de 1.800 um ano depois, e a planta passou a operar em três turnos a partir de abril de 2026. Foram 10 mil veículos produzidos até maio de 2026 e mais de 15 mil entre janeiro e agosto, com projeção de 32 mil no ano.
A meta de nacionalização é de 60% de conteúdo local em três anos, partindo de 18 fornecedores brasileiros ativos na inauguração. Pneus, vidros, rodas, bancos, chicotes e pintura já são nacionais desde o primeiro dia.
O plano de R$ 10 bilhões tem duas partes e a segunda é a que importa
O investimento total anunciado é de R$ 10 bilhões entre 2022 e 2032, dividido em R$ 4 bilhões na primeira fase, até 2026, e R$ 6 bilhões na segunda, de 2027 a 2032. Parker Shi, CEO da operação, fala em chegar a uma produção de 250 mil a 300 mil veículos no Brasil.
O item que muda a leitura do pacote não é a linha de montagem, é o centro de pesquisa e desenvolvimento instalado em terreno vizinho a Iracemápolis, o primeiro da GWM na América do Sul. São 15 mil metros quadrados de área total, 4 mil metros quadrados de laboratórios e mais de 60 técnicos e engenheiros, com foco em híbridos flex, eletrificação, combustíveis de nova geração e adaptação de produto ao uso brasileiro.
Montar carro aqui é decisão de custo e de tarifa, e pode ser revista se a equação mudar. Desenvolver carro aqui envolve equipe técnica formada localmente, parceria com fornecedor e projeto adaptado ao país; é investimento de saída bem mais difícil. O mesmo raciocínio se aplicou quando a Ford encerrou a fabricação no Brasil, no caminho inverso.
A segunda fábrica vai para Aracruz
Em 24 de fevereiro de 2026 a GWM anunciou a segunda planta brasileira, no Parque Industrial de Aracruz, no Espírito Santo, a cerca de 80 quilômetros de Vitória. O terreno tem cerca de 1,7 milhão de metros quadrados e a capacidade projetada chega a 200 mil veículos por ano, com estamparia, solda, pintura e montagem final.
As negociações começaram em 2023, o termo de compromisso foi assinado em janeiro de 2026 e o decreto de utilidade pública do terreno saiu em 26 de janeiro. A construção deve empregar de 1.500 a 3.500 pessoas, e a operação plena é estimada em até 10 mil empregos diretos e indiretos. Os modelos e a data de início de produção não foram divulgados.
Um ponto que costuma passar batido: o projeto de Aracruz está descrito pelas fontes como parte do mesmo pacote de R$ 10 bilhões, e não como um aporte adicional.
A linha brasileira apostou em híbrido, não em elétrico puro
A leitura de mercado da GWM no Brasil é diferente da que a BYD fez, e é essa diferença que explica o desempenho das duas.
O carro-chefe é o Haval H6, que na linha 2027, lançada em 9 de junho de 2026, se tornou o primeiro híbrido plug-in flex fabricado no Brasil. O motor é um 1.5 turbo compatível com etanol e gasolina, com transmissões DHT de duas e de quatro marchas. A faixa vai de 248 cv na versão HEV a 393 cv nas PHEV mais potentes, com autonomia elétrica de até 77 km na PHEV19 e de 126 a 180 km nas PHEV35 e GT. Os preços da linha vão de R$ 199.900 na HEV ONE a R$ 326.000 na GT.
O desenvolvimento levou 12 meses, sendo os oito últimos no Brasil, com mais de 400 mil quilômetros de validação em solo nacional. É o tipo de dado que separa adaptação de calibração de verdade.
Completam a linha nacional o Haval H9, SUV grande a diesel de cerca de R$ 329.000, e a picape Poer P30, de R$ 220.000 a R$ 240.000. Importados são o Ora 03 e o Ora 5, elétricos, o Tank 300 e o Wey 07. Os detalhes do que vem por aí estão no guia de lançamentos de 2027.
Os números de 2026 explicam a segunda fábrica
A série de vendas no Brasil é curta e íngreme: 11.479 unidades em 2023, 29.217 em 2024 e 42.785 em 2025.
Em 2026 o volume acumulado até meados de agosto já superava todo o ano anterior, com 48 mil emplacamentos. Em agosto isolado foram 9.825 unidades, participação de 3,73% e oitava posição no ranking do mês. O crescimento acumulado de janeiro a agosto foi de 99,7%.
O Haval H6 teve em agosto o melhor mês da sua história no Brasil, com 6.433 unidades, décimo lugar no ranking geral de modelos e 65% de todo o volume da marca. No ranking de eletrificados acumulado até agosto, a GWM aparece em segundo lugar entre os híbridos, com 37.409 unidades e 16,8% de participação, atrás apenas da BYD; entre os elétricos puros fica em quinto, com 4.290 unidades e 3%, o que é coerente com a estratégia de priorizar híbrido, tratada também no ranking dos híbridos mais vendidos.
A rede tem 130 concessionárias e 83 centros técnicos, com centro de distribuição em Cajamar com mais de 800 mil peças e R$ 85 milhões em estoque.
O que observar daqui para a frente
O Haval H7, SUV híbrido plug-in de até 364 cv, e o Tank 400, também plug-in, foram confirmados para o Brasil ainda em 2026. A segunda fase do investimento começa em 2027 e Aracruz entra em licenciamento ambiental e terraplenagem.
Para o comprador, a pergunta útil não é qual o preço de lançamento. É onde fica a assistência autorizada mais próxima, em quanto tempo a peça chega e quanto sobra do valor do veículo em dois anos. Com 130 lojas e fábrica instalada, a GWM está na metade mais protegida da lista de marcas chinesas no país, questão que a análise da onda chinesa trata em detalhe.
Perguntas frequentes
O que significa GWM e quando a empresa foi fundada?
GWM é a sigla de Great Wall Motor. A empresa nasceu como uma oficina de reparos criada em 1976 em Baoding, na China, e passou a atuar como fabricante em 1984, tornando-se a maior produtora de picapes chinesa a partir de 1996.
Onde fica a fábrica da GWM no Brasil?
Em Iracemápolis, no interior de São Paulo, na planta que pertencia à Mercedes-Benz e foi comprada em 2021. A produção começou em 15 de agosto de 2025 e emprega mais de 1.800 pessoas em três turnos.
Quanto a GWM vai investir no Brasil?
R$ 10 bilhões entre 2022 e 2032, divididos em R$ 4 bilhões na primeira fase, até 2026, e R$ 6 bilhões na segunda, de 2027 a 2032. O pacote inclui o centro de pesquisa e desenvolvimento de Iracemápolis e a futura fábrica de Aracruz.
Onde será a segunda fábrica da GWM?
Em Aracruz, no Espírito Santo, em terreno de cerca de 1,7 milhão de metros quadrados no Parque Industrial local, com capacidade projetada de até 200 mil veículos por ano. Os modelos e a data de início de produção ainda não foram divulgados.
Quais modelos da GWM são fabricados no Brasil?
Haval H6, nas versões híbrida e híbrida plug-in, Haval H9 e a picape Poer P30. Ora 03, Ora 5, Tank 300 e Wey 07 são importados.
Quanto a GWM vendeu no Brasil em 2026?
O acumulado até meados de agosto era de 48 mil unidades, volume superior a todo o ano de 2025. Em agosto isolado foram 9.825 emplacamentos e 3,73% de participação, com crescimento de 99,7% no acumulado do ano.
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