O caminhão elétrico de 500 km já existe. O problema é onde ele recarrega
O eActros 600 roda 500 km com uma carga e aceita 400 kW, mas no Brasil os modelos disponíveis ficam entre 300 e 400 km e o corredor de recarga mais avançado do país opera com 120 kW

Dado central da análise
KW é a potência dos carregadores do corredor e-Dutra, o projeto mais avançado do Brasil, contra os 400 kW que o eActros 600 aceita em corrente contínua.
O que você precisa saber
- O eActros 600 roda 500 km com uma carga, tem bateria de 621 kWh e aceita 400 kW em corrente contínua e cerca de 1 MW no padrão MCS
- Esse caminhão é produto europeu, fabricado em Wörth, na Alemanha, e não é o que está à venda no Brasil
- Denis Güven, CEO da Mercedes-Benz para a América Latina, diz que os eActros disponíveis no Brasil rodam de 300 a 400 km
- O corredor e-Dutra, entre Rio e São Paulo, é o projeto mais avançado do país e opera com carregadores de 120 kW
- Foram 368 caminhões elétricos emplacados no Brasil em 2025, queda de 23%, e 150 unidades de janeiro a maio de 2026
- A transportadora Navarini comprou 251 caminhões elétricos XCMG em setembro de 2026, cerca de R$ 500 milhões, mais que todo o emplacamento de 2025
- A Mercedes-Benz avalia gás e biometano para o Brasil e projeta dez anos até o hidrogênio ganhar escala aqui
- A marca projeta queda de 5% a 10% no segmento de caminhões no Brasil em 2026
Na feira de Hannover, em setembro, a Mercedes-Benz mostrou o que um caminhão elétrico já consegue fazer. O eActros 600 roda 500 km com uma carga, carrega 40 toneladas combinadas, tem bateria de 621 kWh e aceita 400 kW em corrente contínua. Num padrão futuro chamado MCS, chega a cerca de 1 MW, o que resolveria a recarga em menos de 30 minutos.
A frota global desse modelo já acumulou mais de 160 milhões de quilômetros desde o início da produção. A telemetria mostra que metade das rodagens diárias passa de 400 km e 20% passa de 600 km.
O caminhão, portanto, não é mais o problema. Quem diz isso é Achim Puchert, CEO da Mercedes-Benz Trucks: segundo ele, o resto precisa vir dos fornecedores de energia e da infraestrutura.
Só que esse caminhão não é o que roda aqui
E aqui entra a parte que costuma sumir da manchete.
O eActros 600 é produto europeu, feito em Wörth. Denis Güven, CEO da Mercedes-Benz para o Brasil e a América Latina, foi direto: os eActros disponíveis no Brasil têm de 300 a 400 km de autonomia, conforme a configuração e a aplicação.
Então a frase correta não é que o caminhão de 500 km precisa achar onde carregar no Brasil. É que o caminhão de 500 km ainda não está no Brasil, e o de 300 a 400 km que está aqui já encontra a mesma dificuldade.
Os 120 kW que explicam tudo
O projeto mais avançado de recarga para pesados no país é o e-Dutra, corredor entre Rio e São Paulo com 17 empresas envolvidas, entre elas Volkswagen, Amazon, LOTS Group, DHL, To Do Green e EcoRodovias. Os pontos ficam em paradas Graal e no PIT de São José dos Campos. A meta é chegar a cerca de mil viagens diárias de caminhões elétricos na via até 2030.
Os carregadores do e-Dutra operam com potência média de 120 kW.
Guarde os dois números lado a lado. O caminhão aceita 400 kW. O corredor entrega 120 kW. A diferença não é técnica, é econômica: com um terço da potência, a parada de recarga triplica, e a parada é onde o frete deixa de render.
Não existe número consolidado público de eletropostos dedicados a caminhões pesados no Brasil. Essa ausência, por si, já é a resposta sobre o estágio em que estamos.
Para o cenário mais amplo da rede de recarga, inclusive a de veículos leves, vale Eletropostos no Brasil.
Os números brasileiros do elétrico pesado
Foram 368 caminhões elétricos emplacados em 2025, queda de 23% sobre 2024. De janeiro a maio de 2026, 150 unidades. Quase tudo importado, sobretudo da China. O acompanhamento mensal está em Caminhões elétricos no Brasil.
E então, em 15 de setembro, veio um contraste que vale registrar. A transportadora Navarini, de Sorriso, no Mato Grosso, fechou a compra de 251 caminhões elétricos XCMG E7-95T por cerca de R$ 500 milhões, veículos de 74 toneladas de peso bruto e 120 toneladas de capacidade máxima de tração. Uma única empresa comprou o equivalente a 1,7 vez tudo o que o Brasil emplacou em 2025.
Isso não significa que a barreira caiu. Significa que, em operação fechada, com rota conhecida e recarga na própria base, a conta já fecha. O que ainda não fecha é o caminhão elétrico de rodovia aberta, que depende de encontrar potência no meio do caminho.
A rota brasileira é outra
Güven afirma que o Brasil não vai repetir o roteiro europeu. O caminho daqui passa por biocombustíveis e múltiplas tecnologias. Um teste com biodiesel na Norte-Sul, de 4.000 km, mostrou redução de 99% do CO2 na medição do tanque à roda e de 60% a 70% do poço à roda.
Sobre gás e biometano, a marca não descarta e diz observar de perto porque existe movimento no Brasil. Sobre hidrogênio, estima cerca de dez anos até ganhar escala aqui, com atividade zero hoje.
A projeção da marca para o segmento de caminhões no Brasil em 2026 é de queda de 5% a 10%, em linha com o que mostram os emplacamentos de caminhões do ano.
Uma correção necessária
Circula a informação de que a Mercedes-Benz teria manifestado ceticismo sobre a norma Euro 7. Nas declarações de setembro de 2026, não foi isso que os executivos disseram. O alvo da crítica foram as metas de CO2 da União Europeia, que preveem corte de 43% até 2030, 64% até 2035 e 90% até 2040, contra uma realidade em que apenas 2,4% dos pesados novos emplacados na Europa são zero emissão.
No Brasil, como já detalhamos no guia dos lançamentos de 2027, não existe cronograma para Euro 7 nem para o Proconve P9. O país segue no P8.
Perguntas frequentes
Qual caminhão elétrico tem 500 km de autonomia?
O Mercedes-Benz eActros 600, com bateria de 621 kWh em dois pacotes de células LFP, consumo de 103 kWh a cada 100 km e capacidade combinada de 40 toneladas. Ele é produzido em Wörth, na Alemanha, desde o fim de 2024.
O eActros 600 é vendido no Brasil?
Não. Segundo Denis Güven, CEO da Mercedes-Benz para o Brasil e a América Latina, os eActros disponíveis no país têm de 300 a 400 km de autonomia, conforme a configuração e a aplicação.
Quanto tempo leva para recarregar um caminhão elétrico pesado?
Depende da potência do carregador. No padrão CCS, a 400 kW, o eActros 600 leva de 46 a 70 minutos conforme o número de baterias. No padrão MCS, de cerca de 1 MW, seriam menos de 30 minutos, mas o MCS só chega no segundo semestre de 2027.
Qual é a maior barreira para o caminhão elétrico no Brasil?
A infraestrutura de recarga. O corredor e-Dutra, projeto mais avançado do país, usa carregadores de 120 kW, bem abaixo dos 400 kW que os caminhões modernos aceitam. Com menos potência, a parada de recarga se estende e a produtividade da frota cai.
O que é o projeto e-Dutra?
Um corredor logístico eletrificado entre Rio de Janeiro e São Paulo, com 17 empresas envolvidas, entre elas Volkswagen, Amazon, LOTS Group, DHL, To Do Green e EcoRodovias. Os pontos ficam em paradas Graal e no PIT de São José dos Campos, com carregadores de 120 kW e meta de cerca de mil viagens diárias de caminhões elétricos até 2030.
Quantos caminhões elétricos foram vendidos no Brasil?
Foram 368 unidades em 2025, queda de 23% sobre 2024, e 150 unidades de janeiro a maio de 2026. Quase todas são importadas, sobretudo da China.
A compra da Navarini muda o quadro?
Muda a escala. A transportadora de Sorriso, no Mato Grosso, fechou 251 caminhões elétricos XCMG E7-95T por cerca de R$ 500 milhões, com peso bruto de 74 toneladas. Sozinha, a compra equivale a cerca de 1,7 vez tudo o que foi emplacado em 2025.
O Brasil vai seguir o mesmo caminho da Europa na descarbonização?
Segundo Denis Güven, não. Ele afirma que o país seguirá trajetória distinta, apoiada em biocombustíveis e em múltiplas tecnologias. Um teste com biodiesel na Norte-Sul, de 4.000 km, reduziu 99% do CO2 na medição do tanque à roda.
O que a Mercedes-Benz pensa sobre gás e biometano no Brasil?
A empresa não descarta. Güven disse que a marca observa o gás de perto porque existe movimento no Brasil. Sobre hidrogênio, estima cerca de dez anos para ganhar escala aqui, e afirma que hoje a atividade é zero.
O que muda na família Axor?
Güven confirmou que haverá novidades, mas disse que não exatamente da maneira imaginada. O motor OM 470 está pronto para o Brasil e a evolução do OM 471 reduz o consumo em até 4% na versão europeia.
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